Poema de Ricardo Reis “Ode” 1933

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Poe quanto es
No mínimo que fazes.
Assim como em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.
(Ricardo Reis, “Ode” (1993))
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Tu tens um medo – Cecília Meireles

Que tal um pouco de nossa querida poetisa Cecília Meireles hoje?

Tu tens um medo
(Cecília Meireles)

Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.
Não ames como os homens amam.
Não ames com amor.
Ama sem amor.
Ama sem querer.
Ama sem sentir.
Ama como se fosses outro.
Como se fosses amar.
Sem esperar.
Tão separado do que ama, em ti,
Que não te inquiete
Se o amor leva à felicidade,
Se leva à morte,
Se leva a algum destino.
Se te leva.
E se vai, ele mesmo…
Não faças de ti
Um sonho a realizar.
Vai.
Sem caminho marcado.
Tu és o de todos os caminhos.
Sê apenas uma presença.
Invisível presença silenciosa.
Todas as coisas esperam a luz,
Sem dizerem que a esperam.
Sem saberem que existe.
Todas as coisas esperarão por ti,
Sem te falarem.
Sem lhes falares.
Sê o que renuncia
Altamente:
Sem tristeza da tua renúncia!
Sem orgulho da tua renúncia!
Abre as tuas mãos sobre o infinito.
E não deixes ficar de ti
Nem esse último gesto!
O que tu viste amargo,
Doloroso,
Difícil,
O que tu viste inútil
Foi o que viram os teus olhos
Humanos,
Esquecidos…
Enganados…
No momento da tua renúncia
Estende sobre a vida
Os teus olhos
E tu verás o que vias:
Mas tu verás melhor…
… E tudo que era efêmero se desfez.
E ficaste só tu, que é eterno.

Não entender – Clarice Lispector

Há tantas coisas que não entendemos nessa vida, não é mesmo? Mas, talvez, há uma certa beleza no não entender e no percurso que percorremos pela compreensão.
Veja o texto de Clarice Lispector, “Não entender” – eu gostei muito =]
Crédito: Borboletas na Barriga
Crédito: Borboletas na Barriga
“Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo”.
(Clarice Lispector em “A descoberta do mundo: crônicas” p.178).

Keep me in mind

Crédito: Guy Mayer
Crédito: Guy Mayer

Keep me in mind

When the cold outside creeps in through the door
And it feels like I can’t take no more
My heart feels small
And I feel so weak
But somehow your voice is here to keep
Me going on
Somewhere ahead
The light the words you said
They shed
Keep me going on
Keep my head up high
I’m not alone
You’re by my side
The warmth you give
It blocks my doubt
The stars align in their own time
But they align
Yes they align.
Keep heading North
Keep dreaming high
Keep that love in your heart
Keep me in mind.

You’ll be fine young one
You’ll be fine.

(Moara F Lacerda – march 23 2014)

Equilíbrio

A corda bamba balança
(esquerda, direita, esquerda…)
E o corpo se atrai na gravidade
Em busca de um sentido certo de firmeza
(direita, esquerda, direita…)
A mente se contorce na dúvida presa
Em um passo em falso
Imaginando a força de uma queda
Em vão
(esquerda, esquerda, direita…)
Já meus olhos
Buscam uma resposta caída em meu lugar
Evitando se curvar ao chão
(direita, direita, esquerda…)
Se ao menos eu soubesse por onde andar
(esquerda…)
Se ao menos pudesse me antecipar
(direita…)
Se soubesse cada certeza em seu lugar
(direita, esquerda, esquerda…)
Mas então perderia o saber do equilibrar
(centro)
Pois parada estaria no destino sem se aventurar
Já a arte da vida é acertar e errar
Na caminhada que se aprende
Ao equilibrar
(esquerda, direita, direita, esquerda…)

(Moara F Lacerda – 15/05/15)

North

Mundo você mudou
Crédito: Grant MacDonald

North

When will this start making sense
This life, the way that living goes
You live, you dream, your high, your low
And time is time
Its fast and curveless

When will I have the will once more
To fight this dream, to jump the fence
Over the mountain, beyond the sea
All is a horizon view that’s now not seen
Is the other side really where the grass is green?

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The road not taken (Robert Frost) / A estrada não trilhada

Quero compartilhar com vocês um poema de Robert Frost – com certeza um dos meus favoritos. Fiz uma tradução livre, mas claro que a beleza do poema e a harmonia das palavras usadas pelo poeta Frost não se mantêm igual.

Sempre que me vejo incerta sobre decisões que preciso tomar, sobre os caminhos que preciso percorrer recorro ao poema de Frost para ser lembrada que a vida é feita de escolhas. A vida é feita de escolhas e a dúvida faz parte do processo, pois sempre ao escolher estamos abrindo mão de alguma coisa sobre a qual a palavra “se” sempre reinará. Então, o que fazer? Como escolher? Como saberemos se a escolha foi certa ou não?

Sei que ainda não descobri as respostas para todas essas perguntas, porém a cada dia que passa, a cada escolha feita, tenho percebido que o mais importante é fazer a escolha. Não ficar parada no tempo com medo de errar. Escolha seu caminho, aquele que dialoga mais com o seu coração, já que a razão pode se enganar tendo em vista nossas percepções limitadas. O coração, esse sim, sabe do que precisa o nosso ser. Percorra seu caminho sem medo, aproveite todos os acertos e erros, todas as alegrias e frustrações que decorrerão desse caminho. Aproveite para aprender, aproveite para mudar sua percepção de mundo, aproveite para tocar a vida de uma pessoa e fazer a diferença. Dessa forma, a vida encarregará de garantir que seus passos cheguem onde for preciso chegar. Não tenha medo, caminhe.

The road not taken (Robert Frost)

TWO roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;

Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,

And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back.

I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I—
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.

A estrada não trilhada (tradução livre – Moara F Lacerda)

Duas estradas bifurcaram em um bosque amarelado
E infelizmente, não pude percorrer as duas
E ser apenas um viajante, por um tempo ali fiquei
Observando uma pela distância que pude enxergar
Até onde dobrava e desaparecia

Depois tomei a outra, igualmente justa,
E tendo talvez um atrativo a mais,
Pois era cheia de gramíneos desejando ser usada;
Mas quanto a isso os viajantes por lá
Tenham desgastado ambas quase iguais.

E ambas naquela manhã deitavam igualmente
Em folhas que passo algum escureceu.
Ah, deixei a primeira para outro dia!
Mas sabendo como caminhos levam a caminhos,
Duvidei se um dia voltaria.

Com um suspiro isso um dia conterei
De algum lugar há anos e anos deste momento:
Duas estradas bifurcaram em um bosque, e eu-
Eu fui pela estrada menos trilhada,
E isso tem feito toda a diferença.

Queria tanto

Queria tanto

Queria tanto poder voar,
sentir o gosto da suavidade e saber como é não ter nenhum peso nas costas,
nenhuma corrente me segurando;
viver a beleza do ato impulsivo,
de reflexo não pensado,
desconhecidamente desejado.

Queria tanto conhecer meus desejos mais íntimos,
escondidas de mim mesma em um labirinto sem igual;
esperando a consciência se libertar,
acordar para o que se realmente é, 
entre o espaço do que se foi
e daquilo que se deseja ser.

Queria tanto desejar as coisas mais simples
e sonhar as coisas mais fáceis,
mas a minha própria alma é contra.

(Moara F Lacerda 05 maio 2015)

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